Tempo passa!

Tempo! Passa tempo,
Anda tempo,
Voa tempo,
Muda o tempo!…
Saudades tenho.

Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.
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A gente sempre quer mais

Acordei me sentindo o dono do universo,
Sem ao menos medir o meu tamanho,
Pensei ser maior que tudo e a todos,
E assim perdi os elos – olhar escuro.
Por entre o ego e a vaidade, subi
Ladeiras em dois e dois degrau
Quero ir aos céus em elevador,
A escada cansa – meu mundo avançado.
Quero telefonar pra Deus e despedi-lo
Dizer que agora tomarei posse dos céus
E do paraíso, e tudo isso foi loucura
Acordei de um sonho e entrei no outro.
Pequei em pensamento, Deus me perdoe,
Dei um tiro no cara da esquina,
E tomei seu lugar, a juventude já está perdida
Muito dinheiro vou ganhar.
Eu perverso, dizia ser anjo,
Quem era Lucifer? A não ser um anjo!
E a minha beleza a confundir
Os olhos de quem ver se engana.
Hoje acordei me sentindo eu,
Não queroser o dono do universo,
E muito menos tomar o lugar de Deus,
Jamais mataria uma mosca.
Eu e a natureza, vendo as minhas ações
E as ações dos demais, somos tão mesquinhos,
Destruímos a natureza que vivemos,
Homens querendo ser dono do mundo.
E eu prefiro um café pela manhã,
E quem sabe pelo final da tarde,
E pela noite – quero ver o mundo
Por outro olhar – um universo melhor.
Acender um cigarro, tomar um conhaque,
E ver meu Deus, que dia louco,
Que dia louco – a gente sempre quer mais,
E um pouco mais.

Telepatia

Seu olhar brilhante
Em meu olhar pétreo,
Fez reluzir minha retina
Por entre os sonhos.
Certeiro entreguei-me
Ao seu coração tênue
Com todo cuidado,
Para não magoar-me,
Quem sabe numa ilusão,
Ou em sua despedida.
Retrato cada momento
Por entre os escombros
Seu ser solto, livre
Encontra-me.
O trocar de olhar
Tudo revela
– O olhar não mente.
Em pensamento
Você tudo diz,
E eu também,
Você descobre-me
E eu descubro-na,
Diante a esquina
Silenciosa.

Valter Bitencourt Júnior Participa: Café Com Poemas, Antologia Poética, Volume 2

É uma grande satisfação em fazer parte da antologia Café Com Poemas, organizada por Leandro Flores, 2019, ISBN: 9786580343003, participei com a poesia “Injustiça”, pág. 68.

Injustiça

Vem em forma de bicho feroz,
Dirigido por um ser subordinado.
Por que devoras sonhos 
realizados 
Se a minha vida é o meu trabalho
Agora destruído? 
Joga meus esforços 
Por água abaixo,
Injustiça!
Nessa vida me sinto perdido,
A maré me sufoca,
Os pássaros me beliscam,
Os meus olhos já não brilham…
O que me resta,
O que me falta
Nesses duros e cansados dias?

Valter Bitencourt Júnior lendo poesia da própria autoria “Perfeição”

Perfeição

Olha a perfeição,
Rebolando,
Dançando,
Cantando,
Como se fosse uma rosa,
Olha a perfeição rosa,
Morta em sua direção como
O céu ao vento
Olha a perfeição tranquila
Beijando o relento.
Olha a perfeição vermelha cor
De guerra chorando a beleza…
Olha a perfeição como o sótão
Escuro; como a cortina da noite,
Suja; como o branco de um assento,
Visível; como a transparência
Do dia.
Olha a perfeição jogando tudo
Pra trás e se entregando ao seu
Inverso…
Olha a perfeição
Não está mais perfeita.

Onde está o teu corpo: Valter Bitencourt Júnior recitando poesia da própria autoria

Onde está o teu corpo

Ao sentir o teu corpo perto do meu
Senti calor.
Olhei nos teus olhos,
Ganhei confiança
Nessa noite serena me apaixonei…
Ao sentir teu corpo perto do meu
Comecei a te admirar
Observei tua boca,
olhos,
orelhas,
nariz…

De cima a baixo 
Começo quase sem fim…
Porque em um certo dia,
Não cheguei a ver nem os teus pés.

Mas onde esta o teu corpo
Que estava perto de mim?

O Jornal O Inimigo do Rei, de Maio de 1987: Falando Sobre a Violência Policial na Bahia

O jornal O Inimigo do Rei, de Maio de 1987, falando sobre a violência policial, aqui na Bahia: “Em nenhum outro estado do Brasil há tantos linchamentos e tantos perpetrados por policiais como na Bahia. Para um governo do PMDB, cuja bandeira principal é a “mudança” esta situação deveria ser uma das principais questões administrativas.

Só durante os primeiros 45 dias do governo Waldir Pires, ocorreram oito linchamentos, na capital e interior. A polícia militar, por seu turno, já tem até um sargento envolvido em assalto a banco junto com seus comandantes e um alto oficial envolvido no assassinato das crianças Geovana e Leonardo.” segundo o jornal O Inimigo do Rei.

Eles falam também sobre as torturas: “Já não passa um dia em que não chegam às redações das rádios e dos jornais, queixas de pessoas pobres e negras (os dois ingredientes sao fundamentais num estado onde vigora o “apartheid” oficiosos, pois embora de maioria negra, todas as autoridades e a burguesia são brancas), de que foram espancadas por policiais civis ou militares.

As delegacias da Polícia Civil do Estado da Bahia transformaram-se em centros de torturas e há casos, por exemplo, de torturas e espancamentos de menores, por estarem vendendo picolé em estação de transbordo ou por estar mercando bugigangas em via pública. Como as vítimas são pobres, negras e analfabetas, vão às redações, mas morrem de medo de serem identificadas e sofrerem represália dos policiais.” segundo o jornal O Inimigo do Rei.

Eles falam também sobre a preocupação do governo quanto a isso, e que eles não tomam medidas alguma.

“A tortura nas delegacias continua correndo solta. Os policiais dispõem da vida de ladrões de galinha como se fossem ladrões do Erário. Quem rouba o Brasil em dólares, participando da “cumidilha”, é deputado constituinte, e quem rouba a galinha do vizinho porque está passando fome, é fuzilado pela polícia, ou, no mínimo, torturado. A situação é tão vexatória que na última semana de abril agentes da Policia Civil invadiram uma casa numa favela do Vasco da Gama avisando à mãe de um ez-gatuno (ladrão de relógio) que agora ela só voltaria a vê-lo no cemitério.” segundo o jornal O Inimigo do Rei, eles prosseguem: “E ainda tem gente que lute pela pena de morte no Brasil. Ela já existe – só para preto e pobre – embora os policiais também sejam pretos e pobres, aó que nem consciência de classe raça têm. Só porque recebem uma radiola aqui, um reloginho ali, “um fogo” (revolver) acolá, sentem-se acima de seus irmãos proletários. Às vezes suas casas espelham uma miséria maior do que a do marginal que perseguem com tanta fúria.”

O jornal O Inimigo do Rei também fala sobre o salário “miserável”: “Mas, falar da violência policial na Bahia e não falar dos salários de fome que a PM e a Polícia Civil pagam é ser alienado, é enfiar a cabeca na areia como o avestruz.

Há soldados da PM que não fazem mais que Cz$ 2,6 mil por mês, isto é, menos que um cobrador de ônibus. Há agentes da Policia Civil que não chegam a ganhar Cz$ 3 mil. O que ocorre então? Por razões de sobrevivência, as mesmas invocadas pelos marginais, eles partem para a contravenção, para os pequenos roubos, para as extorsões de putas e viados, para a divisão de roubo com os ladrões. Ou no caso dos mais radicais, como sargento da PM muito doido, formam uma quadrilha e roubam fardados.

Por oferecer salários irrisórios, as policias atraem a escoria da sociedade. Pessoas sem educação formal, que não têm o mínimo respeito por elas próprias nem pelos seus semelhantes e , então, está instaurada a guerra civil nas ruas da Bahia. Pois os dois lados são extremamente parecidos e vivem vidas absolutamente idênticas – a miséria do policial leva-o (com toda razão) ao delito e à violência -, e a miséria do negro pobre e desempregado produz um tipo de cidadão anti-social, violentíssimo, também, em muitos casos.”

Nos dias de hoje, essa notícia do jornal O Inimigo do Rei, publicada em Maio de 1987, continua atual, até porque é o que vem acontecendo em nossa sociedade ainda, aqui na Bahia, recentemente eu vi uma notícia de que um jovem conseguiu provar a inocência depois de um ano, ele ficou preso por 1 ano, e depois de tudo que passou, de todo o constrangimento e opressão, que ele conseguiu provar a inocência e ser absolvido das acusações, que foi de roubo coletivo e tráfico de droga.

Vi também uma notícia de um jovem que se encontra preso sem cometer crime algum, e a família vem lutando pela liberdade dele. O abuso de poder continua, homem é barrado de entrar no metrô, acusado de tentar passar sem pagar, em seguida aparece vários policiais e o agride tanto de forma verbal quanto de forma física, na Estação do metrô, um vendedor ambulante teve as mercadorias apreendidas e foi agredido pelos militares, isso foi recente!

Valter Bitencourt Júnior, 06 de agosto de 2019.