Resenhas: “(Quase) Borboleta” e “Águas Turvas”


Assim que eu abrir os envelopes da correspondência trazidas-me pelo Correio, eu comecei a admirar a beleza de ambas as capas do livro de autoria de Helder Caldeira, e diante aos livros “(quase) borboleta” e o livro “águas turvas”, o livro “(quase) borboleta” fez com que eu observasse bem a capa e ao mesmo tempo o título, assim despertando-me a curiosidade, pois vi na capa toda uma simbologia e um mistério que eu precisava de alguma forma desvendar, para isso eu tive que penetrar no livro e unir cada mistério, que apresentava na capa, tanto a face de uma estátua belíssima, quanto ao título tudo despertou-me a curiosidade e a sede de leitura.

Uma das coisas que mais tem me chamado a atenção ao fazer a leitura do livro “(quase) borboleta”, é a forma que o Helder Caldeira escreve, pois ele usa a descrição com uma grande maestria, assim capitando não apenas as personagens, quanto também todo o ambiente, o tempo e espaço. Tudo isso acabou despertando a minha curiosidade para iniciar também a minha leitura sobre o livro “águas turvas”, assim confirmando se de fato esse é o estilo do autor, estilo surpreendente de capitar tudo de forma descritiva, assim levando ao leitor a capacidade de também enxergar toda a sua sensibilidade quanto autor, de ambos os livros.

O livro “(quase) borboleta”, é um paralelo perfeito entre a busca da essência, que se encontra dentro do livro, é a transformação da borboleta e a sua luta para sair do casulo, o quase entre parentese, é a não subestimação da capacidade do processo de transformação. O fotógrafo Jared e a sua busca pela obra-prima e o Albert, por sua vez violinista do Reino Testemunha de Jeová, na busca pela sua primeira história de amor, ambos buscam a essência e o início do processo de sua transformação. Assim como a borboleta lutando para sair do casulo sozinha, ambos vão se encontrando através da busca e curiosidades.

“(quase) borboleta”, de Helder Caldeira.

É bom também incluir aqui o amigo de Jared, Tungow, que o autor do livro descreve-o de forma surpreendente “… cão de grande porte, com mais de trinta e cinco quilos, pouca consciência tinha do próprio corpo. No fundo Jared adorava essa aproximação vigorosa e descontrolada de Tungow. Não raro, dava boas gargalhadas e acabava fartamente lambido pelo fiel companheiro. Tinha convicção de que aquela relação o salvara do lado sombrio da fama e do sucesso…” Jared como já tenho descrito mais acima é fotógrafo. E também é artista plástico, reconhecido por ser filho de duas grandes estrelas do cinema, carregar esse grande fado de ser famoso não é nada fácil e o Helder Caldeira, soube descrever isso com uma grande maestria, e o seu fiel companheiro era quem o acolhia quando ele menos esperava “… Ninguém sai ileso de una vida pública. Tungow, com seu carinho, lealdade e amor incondicional, acabava atuando, também, como um redutor de danos. Danos mentais, que isso fique claro.”.

A gente percebe também o lado do escritor e o lado do jornalista presente em suas escritas, traços descritivos e algumas crônicas e fábulas constantemente presentes, carregadas muitas das vezes de mistério sem perder por sua vez a sutileza e a essência. A necessidade de perseverança e a capacidade de busca sem que tenha o dedo ou a interferência de outra pessoa em seu processo de metamorfose, mostra a importância e a sua capacidade de a borboleta torna-se inteira, todo o processo de dor e de solidão torna-se necessário para que a borboleta se torne protagonista de si mesma.

A filosofia e o mistério do autor se encontra desde o titulo do livro e a ilustração de sua capa, assim como o livro “(quase) borboleta”, o livro “águas turvas”, também marca toda a essência e mistério que por sua vez visa ser límpida ao longo do tempo. Não ler ambos os livros como se ele fosse apenas destinado a um único grupo LGBT, e sim, ler como o livro que quebra quaisquer tipo barreira, e também destinado para toda à família, que por sua vez carrega muitas das vezes uma vida desestruturada, não devido a homossexualidade, mas devido ao abandono, a perda e a busca de passar por cima de cada obstáculo.

Em “águas turvas”, o autor transmite da dificuldade a luta e a perseverança de continuar seguindo em frente, do brasileiro Gabriel ao Justin Thompson herdeiro de uma família republicana abastada, de Holden e dono de uma rede de revendedora de automóveis. O autor assim como descreve também toda a personagem, o tempo e o espaço, ele também fala de toda a situação econômica que se passou nos Estados Unidos, uma crise que se iniciou desde de 2008. Aí, que entra mais uma vez o lado do jornalista e a sua função de escritor, narrando todo acontecimento sem fugir do romance e de toda situação.

A tentativa de ter filho e passar por um processo de fertilização, a questão da mulher de ser muitas das vezes cobrada em ter filho para a alegria da família, como se fosse a obrigação dela e todo o desgaste e a perda e frustração, quanto também a questão do aborto, tudo isso é abordado no livro “águas turva”. Ter um filho fora da família e tentar esconder devido ter uma condição financeira boa e não querer quebrar o elo já construído com a família anterior, assim mantendo a família como a base de tudo e para não criar rebuliço, então surge a tentativa de subordinar a mulher para que ela venha à sumir com o filho, assim assumindo toda a maternidade sozinha, sem que ele tenha o direito de saber quem é o pai.

Não sou muito bom de fazer spoiler rsrs, mas recomendo e muito a leitura de ambos os livros para que cada um possa tirar as suas próprias conclusões.

“águas turvas”, de Helder Caldeira.

Família

Para cada encanto uma flor
Um nevoeiro na visão
Cortinas estampada
Neblina e laço
De amor.
Vermelha flor
A brotar do botão.
Há plantas que morrem
Para se renovar
Há seres que vivem
Para morrer e reviver
Num simples riso
A transbordar.
Somos uma árvore
Genealógica
Velha árvore
A trazer frutos
E novas gerações.


Para cada encanto uma flor
Um nevoeiro na visão
Cortinas estampada
Neblina e laço
De amor.
Vermelha flor
A brotar do botão.
Há plantas que morrem
Para se renovar
Há seres que vivem
Para morrer e reviver
Num simples riso
A transbordar.
Somos uma árvore
Genealógica
Velha árvore
A trazer frutos
E novas gerações.

Flores no quintal de minha casa.

Realidade

Uma droga
Que leva
Toda uma família
Em fúria.
A vida que vicia,
E nasce uma
overdose,
Que rouba o tempo
Maldita droga!
Que consome
E rouba a alma
Do ser.
……..
Em distância
O choro de um pai,
E o grito e desespero
De uma mãe.


Uma droga
Que leva
Toda uma família
Em fúria.
A vida que vicia,
E nasce uma
overdose,
Que rouba o tempo
Maldita droga!
Que consome
E rouba a alma
Do ser.
……..
Em distância
O choro de um pai,
E o grito e desespero
De uma mãe.

Partida

Cava
A
Cova
De quem
Vai
Embora,
Sem a despedida.
Não há consolo
Abraço
Para quem fica.
Cava
A cova
De quem parte
E vira estatística
Nem todos
Se importa
Com a vida…
A
Vida
Do outro
Que vai
– Fica esquecida.
Não resta
Mais memória,
Queima
Os arquivos
Da história.
E espalham
Que nada
Vem sendo
Realidade
No coração
Humano
Também há
Maldade.
Cava
A cova
No mundo
De pessoas
Viva e por dentro
Morta.


Cava
A
Cova
De quem
Vai
Embora,
Sem a despedida.
Não há consolo
Abraço
Para quem fica.
Cava
A cova
De quem parte
E vira estatística
Nem todos
Se importa
Com a vida…
A
Vida
Do outro
Que vai
– Fica esquecida.
Não resta
Mais memória,
Queima
Os arquivos
Da história.
E espalham
Que nada
Vem sendo
Realidade
No coração
Humano
Também há
Maldade.
Cava
A cova
No mundo
De pessoas
Viva e por dentro
Morta.

Ricardo Boechat, depressão…


No ônibus, a gente sempre acaba ouvindo algumas conversas e outras, e uma delas foi sobre o Ricardo Boechat, um rapaz falando que o Ricardo Boechat foi um excelente jornalista, mas ele era depressivo, e que depressão é uma besteira, as pessoas tem de saber se fortalecer, e ser forte, outra pessoa passou a interagir e disse que existe pessoas que tem depressão e não sabe (e calou-se), o rapaz prosseguiu, quer dizer que eu vou terminar com a minha mulher e eu vou me matar? Muitas das vezes eu chego em casa a mulher quer assistir a novela, eu deixo ela assistir a novela, e compro outra televisão, eu tenho que trabalhar, ser forte, lutar para ter as minhas coisas…

Muitas das vezes fico observando essas pessoas falando sobre depressão, como se a depressão fosse algo que não existe, que é fácil de lidar… Que Deus o livre de que ele entre numa depressão, o ser humano não é forte a vida inteira, existe momentos bons e ruins, cada ser humano passa pelos seus momentos, são poucos que conseguem superar. Sempre quando escuto conversa como essa, fico pensativo, com a falta de sensibilidade de algumas pessoas, lembro de uma grande amiga que perdeu o pai, e entrou em depressão, lembro das lágrimas dela (e eu sem saber o que fazer, apenas buscando consolar em alguma forma com algumas palavras – seu pai, onde ele estiver, ele quer lhe ver feliz…), lembro dela deitada, um abraço bem fraco (leve), não via em sua face o sorriso, a memória sem funcionar direito.

Mas, quem sabe seja assim, muitas das vezes passamos a acreditar quando acontece com a gente mesma, logo o ser se torna sensível diante a tudo ao que falou. Viver em base de terapia, medicamentos, e saber que não pode parar, porque a depressão pode voltar caso pare, não é algo fácil. Saber que a mente pode levar o ser a fazer coisas que menos espera, não é fácil, o ser é capaz até de se matar, diante ao desespero, a não aceitação das pessoas, pior ainda quando a família abandona em momentos como esse.

13/02/2019, Facebook

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